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02/12/09
Sem ti
Suspirei. Olhei pela janela do carro em movimento e poucos foram os borrões de imagem que consegui entender. Enquanto a minha vida se desfocava á velocidade da luz a única coisa em que eu pensava era no que tu farias agora. Talvez deixasses passar a vida por ti, como se ela nunca tivesse existido, mas, e este simples mas é muito importante, tu largarias a vida sem me largar a mim. E eu não te conseguia agarrar, nem te conseguia ver. Eras apenas um esboço da minha vida, uma mancha nos meus olhos. Como poderia isto estar a acontecer enquanto eu estava na auto-estrada directa para o inferno, eu não sabia. O sol parecia mais quente enquanto eu derramava gotas de suor por todo o corpo, o carro parecia abrandar conforme ficava mais quente, e eu ali quieta, imóvel, sem mexer um único músculo em tom de voltar atrás, em tom de voltar atrás para ti. O meu percurso já estava destinado, o caminho estava a ser seguido tal e qual como foi traçado, alguém havia escrito a minha vida do início ao fim e o fim acabara de me atingir. Fui expulsa da minha dimensão paralela a todas as outras terminando assim a minha existência, acabando assim com qualquer tipo de actividade ou coisa semelhante que fazia enquanto o oxigénio me entrava pela boca e o sangue me corria nas veias. Estava perto. Quis gritar, quis chamar por ti mas não saía som. Perdi a minha voz e juntamente com ela o que restava da minha força. Perdi a minha forma de liberdade e a minha maneira de comunicar, o meu modo de fazer justiça estava agora extinto. As minhas pernas não se moviam. Estava presa num carro em andamento e nada me podia tirar dali sem ser quem eu mais esperava. Estava presa a uma viagem finita com destino ao abismo, ao supremo da tortura e da angústia. Ouvi ao longe: o melhor conselheiro é o tempo. Era uma voz tão familiar, tão grossa e uniforme. Comecei a pensar em deixar o tempo tomar conta de mim, mas tempo era exactamente o que eu não tinha. O tempo esgotou durante o meu pensamento. Saí do carro, andei em direcção a um poço de almas, por instinto. Senti que merecia: nunca mais veria a tua cara, não te podia proteger, não podia mais ser tua. Senti algo no meu ombro, olhei para trás o céu limpo e o sol brilhante faziam uma nova paisagem. Há sonhos infernais.
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