27/03/10

Perdida

Sinto-me completamente e desmedidamente incompleta. Sem as tuas chamadas de boa noite não durmo bem, os pesadelos invadem o meu sono e o teu rosto vai sumindo da minha mente… O tempo passa, o relógio nunca vai parar de marcar os segundos que vão avançando dentro dos minutos que vivem dentro das horas que nascem dentro dos dias, tal como eu nasci em ti e vivi no teu sorriso. Não há como perdoar este abandono, deixaste para trás a verdade e foste em busca da mentira, desististe da realidade para viver na ilusão. Viajei, através dos teus olhos, até ao mais profundo oceano e, ao vislumbrar a imensidão, percebi o que era o infinito: não é material mas intelectual, é um conjunto de objectivos e ambições num enredo gigante de erros e motivos de orgulho; infinito é a nossa mais profunda verdade baseada em mentiras, é o tudo e o nada. Eu não tenho infinito, o meu infinito eras tu. O meu infinito era o arrepio que me dava sempre que estava contigo, era o calafrio que eu sentia a cada beijo, era a falha no joelho, o tremer das mãos, a sintonia de pensamentos e a imensa comunicação. O meu infinito não era perfeito, tinha ideias pessoais e vontades próprias, ideais e objectivos completamente assimétricos aos meus e isso fascinava-me. Contigo nunca dei um passo para trás, se estavas do meu lado eu tinha a certeza que nunca cairia no precipício da estupidez, nem nunca tropeçaria no arrependimento. Davas-me toda a força de olhar em frente e levantar o queixo, aliás, levantar a cabeça toda perante um desafio, davas-me toda a vontade de engolir o orgulho e correr atrás da verdade, davas-me o nada do teu infinito, davas-me o teu cheiro a algodão doce para pensamentos bons. Agora não tenho infinito. Se me olhares nos olhos perdi a alma, o meu olhar é vazio e perdido. Sinto-me inacabada, não tenho força nem vontade. Perdi o meu toque final, acabamento, aperfeiçoamento… Perdi o meu eterno. Ainda sinto o teu cheiro, suave como é, invade a passinhos de tartaruga o meu olfacto e vai permanecendo até eu sentir o gosto doce dos teus lábios no meu paladar. Infelizmente são apenas delírios da minha mente numa tentativa vã de enganar a nostalgia do meu perfeito imperfeito. Não vou ter um final feliz, não vou ter um príncipe encantado nem sou uma princesa em apuros. Se perdi o infinito, perdi tudo.