Dias, Datas e Memorias
Já era tempo. Não poderia descrever tudo minuciosamente como tu fazes, e peço desculpa por isso. Tu sim, saberias todos os detalhes deste dia se estivesses a falar nele. Saberias a roupa que eu tinha vestida, o meu cheiro, o tamanho do eu riso, saberias o sítio onde estivemos, as pessoas que connosco estavam e o motivo pelo qual nos conhecemos. Eu sinceramente não me lembro. Nem faço questão de me lembrar, apesar de as vezes me dar tanta vontade de me lembrar do primeiro sorriso que trocamos que ate fico triste por uma vez termos trocado o ultimo. Lembro-me sim, com exactidão, de quando demos o primeiro beijo. Lembro-me de que tínhamos vergonha, lembro-me de que nem queríamos assim tanto dar o beijo. Sempre me perguntei: o que ocupava a tua mente naquele segundo? Eu não estive ali, eu voei para tão longe que nem o horizonte la chega. Como eu voei, como eu me apaixonei tão instantaneamente, tão automaticamente por uma pessoa que julgava que nunca mais iria ver, agora, ao me lembrar deste pensamento rio. Vejo-te sempre. Nem no escuro e vasto da minha mente me das descanso. A maior parte dos pensamentos que tenho são sobre ti. Sobre saudade. Mas naquele momento, naquele momento exclusivo, eu só me apaixonei. Deixei que a tua boca me embala-se, a um ritmo tão dócil, tão delicado e ao mesmo tempo com uma explosão de sentimentos de um tamanho tão grandioso. A minha voz hoje e rouca, rouca de tristeza, rouca da imensidão de saudades que sinto ao rever o teu sorriso. Então, a mesma pergunta me invade, mas de uma forma mais explicita, não tão vulgarmente apresentada a minha mente: tu voas-te? Tu deixaste que eu te levasse para sítios tão bonitos quanto o paraíso? Deixaste que a minha boca, encantando a tua, te fizesse apaixonar?
Talvez tenha sido noutro dia, noutro beijo, ou talvez tenha sido o meu riso? Se calhar, apenas terão sido o meu riso, a minha personalidade e o meu amor por ti que despertou tal encanto por uma pessoa que nunca antes havia vivido tão intensamente alguma coisa. Não me lembro, nem faço questão de me lembrar do primeiro dia, mas infelizmente a despedida não me sai da cabeça. Não me sai da cabeça a facilidade com a qual destruímos tudo o que tínhamos construído lutando, contra tudo e contra todos, lutando com mais força do que a Alemanha contra a França em tempos de guerra mundial. E se fosse preciso eu lutava tudo de volta, eu voltava a dar o tudo por tudo, talvez fosse em vão, mas eu sou uma romântica incurável, uma amiga irrequieta do amor.
Desde o primeiro beijo o nosso amor insaciável nunca estagnou, sempre teve a ampla vontade de crescer e aprender com os erros que fomos cometendo a medida que fomos avançando na nossa relação. No entanto, sempre foste bastante confuso no que dizia respeito a nos dois. Creio que sempre tiveste medo de assumir, perante os teus amigos, que já não eras só o amigo deles e que portanto eles tinham que te partilhar comigo, ou talvez tenha sido o medo de assumir uma coisa sob a qual não tinhas absolutamente nenhum controle.
A medida que os meses foram passando, eu e tu, fomos, como qualquer outro casal de época, discutindo com bastante fúria mas mostrando-nos capazes de conviver em harmonia. Nunca celebramos nenhuma data relacionada connosco, pelo simples facto de irmos agradecendo, todos os dias mais um pouco, o nosso amor e não uma data que marcaria apenas algo que já teria começado há mais algum tempo do que esta marcava.
Memorizei, no entanto, e sei que tu também, o dia do primeiro beijo, 25 de Fevereiro, como poderia a minha mente apagar tal conhecimento? Este acontecimento revelou, na altura, memórias de outros tempos, memorias do que fomos sendo ate aquele momento. As memórias que me invadiam a cabeça seriam de coisas muito pouco explícitas, talvez porque não seria suposto eu as recordar. Em todo o meu tempo, em todo o tempo que eu perdi habitando esta terra não renovável, eu percebi, por fim eu percebi, percebi que não vamos chegar a lado nenhum se ficarmos sentados nas confortáveis almofadas do nosso agradável sofá de sala e muito menos deitados no nosso colchão ortopédico. Necessitamos, nos todos, humanos, de tornar o nosso bem-estar merecido. Precisamos nos de lutar, pelo que outros lutaram para nos dar, o que nos faz voltar a memórias. Talvez não fosse pretendido que o meu cérebro atingisse tal momento de êxtase que o fizesse recordar, naquele momento em que tudo era bonito, que houve, um dia, alguém que trabalhou o suficiente para que o mundo existisse ate ao momento que eu o pude realmente começar a aproveitar.
Conclusões, Traições e Ocupações
De aproveitar ate arrepender foi apenas um pestanejar. Comecei, como toda a gente que gera dúvidas de confiança, a fartar-me da situação confusa em que nos encontrávamos constantemente. Éramos instáveis, crianças e não chegamos a ter bem a noção de o que seria ter uma relação. Decidimos por um breve fim a nossa história. Nesse breve fim, continuávamos a tratar-nos como um só, conversávamos, com frases infinitas, saíamos, mais do que seria de esperar para todos os que acompanhavam a nossa vida bem de perto. Concluímos que devíamos casar, concluímos portanto que seríamos imortais, que lutaríamos contra o tempo e tudo o que o interrompesse seria eliminado da forma mais brusca e imediata que poderíamos fazer. Esta promessa, este pedido de um futuro a dois, nunca terá sido completamente descartada. Concluo que será por termos saudades. Apesar de teres tido as tuas aventuras neste pequeno percurso que caminhaste sem mim, o que realmente interessava seria ter-te de volta, e ali estávamos nos, de volta, de volta ao nosso juntos para sempre. Vivemos intensamente as seguintes semanas, se bem que pouco me posso recordar delas, passou velozmente o período de felicidade levando-nos de volta ao período da incerteza. Concluímos que seria temporário. Haviam chegado os tempos de excessivo calor, o verão prometia ser dos mais quentes até á data, intitulei-o de the summer of love, pois sem duvida alguma deixava a crer que o seria.
Terça-feira, matinei, o doloroso toque do despertador soou pela manhãzinha ainda jovem, eu sorri, estava na hora.
Voei desde a minha grande e desarrumada cama ate ao espelho mais próximo para verificar se o meu cabelo estava de acordo com o planeado, na noite anterior havia feito uma pequena grande lista de tarefas para me aprontar de forma perfeitamente perfeita para o meu apaixonadíssimo namorado. Comecei pelo cabelo, e fui descendo até aos sapatos, nesse dia eu poderia dizer que valeu a pena o esforço de matinar e de me aprontar com um estilo subtilmente encantador.
Lamentações, Desculpas e Significados
Lamento tanto que não tenha dado certo. Lamento com todas as minhas forças que eu não tenha conseguido perseguir o que realmente queria: ser feliz ao teu lado. Mas então, a culpa não terá sido apenas minha. Eu não te vi lutar. Não te vi chorar sob aquilo que passamos, não te vi arrepender de todos os erros que cometeste comigo. Nem me pediste desculpa. Sim, desculpa. Merecia tal tratamento reles vindo de uma pessoa que eu venerava, amava talvez? De todos os castigos do mundo, esse pareceu-me o mais baixo. No dia em que soube, senti-me inferior a um ser unicelular, senti-me espezinhada, parecia que um mundo de pessoas me estava a observar duma forma tão lenta e tão serena que pareciam querer julgar-me por erros que nunca cheguei a cometer, apesar de ter sido tentada duma maneira quase irrecusável. Eu soube dizer não ao que te magoava, soube afastar o que te prejudicava, soube apagar da nossa história os meus erros pedindo-te desculpa da forma mais pura e sincera que alguém alguma vez poderia pedir. Eu quis, com toda a minha alma, fazer com que nós resultássemos, fazer com que o teu sorriso, que durava apenas uns segundos, ecoasse na eternidade do meu ser. Eu tornei o teu riso, a tua voz, o teu cheiro, tão familiares para mim que a única coisa que consigo lembrar ao fechar os olhos e isso mesmo, parece que quando tapo os ouvidos consigo ouvir, através da memoria, o teu riso, as tuas gargalhadas mais inconscientes, quando passo o nariz por uma camisola, ou quando me delicio com o cheiro doce que paira no ar, tu invades a minha mente revelando que eu, mesmo no meu subconsciente, apenas conseguirei viver ao teu lado, fazendo tudo para que dê-mos certo, trabalhando arduamente para que nunca queiras separar-te da felicidade que provoco em ti. Já fazias parte da minha rotina, eras um grande pedaço das minhas historias, dos meus romances, das minhas frases filosóficas pela manha, pela tarde, e ate mesmo a noitinha quando o João Pestana já me chamava atirando o sono para o meu quarto. Eu, acima de tudo, quero que saibas que não te guardo rancor. Não te odeio, não te julgo mas sinto-me completamente incapaz de te perdoar. E de te amar de novo. De te amar com tanta força, e com tanto amor, que me doía a cabeça quando não te podia ver, que ficava doente quando não te podia ouvir. Tu eras o meu maior vício, iniciei-te numa tarde de sol e nunca mais te consegui largar, nunca mais te consegui afastar, empurrar, para longe de mim. A tua voz ainda e musica para os meus ouvidos, eu apenas deixei de cantarolar tão alto que o teu riso e a fonte da minha alegria. Eu vivi para ti, e mesmo assim consegui investir em mim. Consegui ter passatempos, ter amigos, consegui evoluir, aprender, sorrir, viver, ser feliz. Consegui as maiores proezas da minha vida enquanto era tua. Enquanto me intitulava de tua namorada, e quando a tua vida invadiu a minha eu consegui salva-la.
Eu, que já implorei tanto a um ser superior que ninguém me garante que existe, implorei mais uma vez, sussurrando mas fazendo com que esse ser superior me ouvisse, recorrendo a uma coisa que tinha que ser a minha última opção, eu pedi por tudo o que tinha, eu pedi-te de volta. Pedi-te de volta com erros, defeitos e parvoíces, porque uma vez que me vi livre deles percebi que não se ama uma pessoa por ela ser perfeita mas sim a ama-mos por ser tal e qual como e: gorda, magra, baixa, alta, mediana, invejosa, egoísta, generosa, querida… O amor não nos chega procurando a perfeição mas sim a pureza do sentimento, ele vem para clarificar a nossa mente corrupta, iluminando-a e mostrando, dando-nos mais uma chance, que somos capazes. O amor, e tema de conversa pois existe em todas as células do nosso corpo, alias e o amor o núcleo da nossa vida.
Antes, Depois e Durante
O passado não havia sido totalmente perfeito, mas eu amava o meu passado, o nosso passado com todos os seus defeitos e loucuras. Na verdade amava mais o passado do que o presente. O passado era tão rico, tão intenso. Confesso ter achado que aquele seria o amor da minha vida, o meu único amor aliás. Não podia estar mais enganada. O que eu havia vivido contigo não tinha chegado ao fim, apenas tinha sido o inicio de tanto mais.
Limpei as lágrimas do meu rosto pálido, levei um pouco de blush á cara com um pouco de algodão e espalhei, suavemente, pela minha pele de modo a que ganhasse alguma cor, com um lápis preto desenhei um risco preto na parte inferior dos meus olhos, agora parecia muito mais velha. Mas, mesmo antes de pegar no casaco cor-de-rosa que tinha escolhido para usar naquele dia lembrei-me de dar um pouco de brilho aos lábios. Saí, silenciosamente, de casa, não podia fazer muito barulho pois o meu pai estava a dormir, ainda. As férias agora já tinham acabado, já nem era mais verão. Era Inverno, mas um Inverno enganador, continuava um clima quente, como se o amor ainda ardesse dentro de mim, parecia que o clima acompanhava a nossa história, a história que aqui escrevo. Enquanto passava pela rua, fazendo o mesmo caminho de todos os dias, reparei que apesar de todo o calor que eu sentia as pessoas não o pareciam acompanhar, na rua haviam pessoas de cachecóis e gorros, e casaco compridos com botas polares. As folhas das árvores também não acompanhavam esse calor, caíam do seu ramo ao ritmo duma balada. Olhei mais de perto, afinal haviam pessoas de todas as maneiras, dando a esta rua uma divergência de estações incrível. A rua estava também multicolor. Avancei, pé ante pé, até que cheguei á escola, estava em obras por isso respirava-se pouco mais que pó ali, dirigi-me para os meus amigos, conversamos um pouco, nada de mais, conversas de senso-comum. Finalmente tocou, chegamos sempre atrasadas mas naquele dia excedemos os limites. Uma amiga veio a correr até mim e implorou para que eu faltasse com ela, eu pensei que uma vez não seriam vezes, não era propriamente u m novo vicio meu e ela parecia estar abalada com alguma coisa. Aceitei. Sentamo-nos num sitio a que chama-mos ‘stair cube’, estávamos lá mais ou menos 10 raparigas, a falar, a rir, a brincar. Vindo do nada, apareceu simplesmente o rapaz mais maravilhoso que vocês possam imaginar, com o sorriso mais bonito e amplo de sempre. Ele pareciam iluminar-me o dia, iluminar-me a cara, iluminar-me a vida, naquele momento. Será que eu estava… Diante de um novo amor?
estava a tentar arranjar palavras certas para conseguir descrever bem estes textos, essas opinioes opcionais nao chegam, eles vão muito para alem disso, acredita. PARABENS, estao espectaculares. beijinhos
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